quarta-feira, 26 de outubro de 2016

SAGARANA(1946) - JOÃO GUIMARÃES ROSA (TERCEIRA GERAÇÃO DO MODERNISMO- PROSA)



SAGARANA(1946)  - JOÃO GUIMARÃES ROSA  (TERCEIRA GERAÇÃO DO MODERNISMO- PROSA)
3ª FASE DO MODERNISMO OU GERAÇÃO DE 45 E VEM ATÉ OS DIAS ATUAIS
(LITERATURA CONTEMPORÂNEA)- CONHECIDA COMO SOCIAL OU  INTROSPECTIVA.

CONTEXTO HISTÓRICO: influenciará os autores
FIM DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
FIM DA GUERRA FRIA
TRIBUNAL DE NUREMBERG- NAZISTAS CONDENADOS
MAO TSI TUNG- CHINA- CRIA A REPÚBLICA POPULAR DA CHINA
REVOLUÇÃO CUBANA -  FIDEL  E CHE- TIRAM O DITADOR  DO PODER E TOMAM CONTA DA ILHA DE CUBA
BRASIL-FIM DA DITADURA VARGAS –
LEGALIDADE DOS PARTIDOS POLÍTICOS- NOVA FASE NA POLÍTICA E ECONOMIA
DITADURA MILITAR- 1964 A 1985- 21 anos de mão de ferro.
CARACTERÍSTICAS DA 3 ª FASE:

Literatura instrumento social de denúncia e de crítica( aprofundar mais nas obras).
Regionalismo universal- Guimarães Rosa
Busca da Verossimilhança-G.R.,

Características de Guimarães Rosa:
PROSA REGIONALISTA-ASPECTOS DA VIDA NO CAMPO, DA FALA COLOQUIAL E REGIONALISTA.
JOÃO GUIMARÃES ROSA(1908-M.G.-1967)-regional/universal
Médico- ia visitar os Pacientes, observava os costumes/linguagem do povo, a terra e o cotidiano. Transportou o conhecimento para a literatura.
Em sua obra a linguagem é cheia de regionalismo(linguagem popular)
Sertão de Minas Gerais
Neologismos( cria novas palavras)-considerado engenheiro da linguagem/língua- mistura  o regional e o universal no sertão de M.G.(miséria)-
ENGENHEIRO PELA MISTURA USAR NORMA CULTA E ARCAÍSMOS, CRIARÁ NEOLOGISMOS.
OBSERVAÇÃO- JOÃO CABRAL ERA CONSIDERADO UM ENGENHEIRO EM BUSCA DA PERFEIÇÃO (NEOPARNASIANO)
Falará sobre a existência.
Bem x mal = misticismo, religiosidade
Foi um dos maiores poetas  do Brasil, sendo que a maioria de suas obras são ambientadas no sertão.

CARACTERÍSTICAS DA OBRA:
Sagarana-a originalidade da linguagem pelo o uso de neologismos(palavras inventadas)
Saga (LENDA)e rana (COMO SE FOSSE)
Sagarana= PARECEM LENDAS.
Sagarana inventada a partir do hibridismo,ou seja,a junção de radicais de línguas diferentes (ESCANDINAVA E TUPI)
A linguagem - dialeto sertanejo nas páginas de seu livro e o mescla aos célebres neologismos e a inúmeros arcaísmos.
É um livro que já mostra o regionalismo (Sertão mineiro,o povo, a jagunçagem,da religiosidade e o amor,que remete á cidade natal do autor,Cordisburgo,onde o autor sairá do regionalismo padrão da segunda geração modernista,para migrar á um regionalismo novo,com a fusão entre o neologismo e linguagem popular.
Sagarana apresentará sertão universal,onde seus personagens terão crenças e reflexões psicológicas acerca do existencialismo da vida e de temas ambíguos como o real x mágico.
O livro contém epígrafes,ou seja,um resumo logo na abertura do capítulo contento provérbios e cantigas do sertão mineiro.
A obra contém nove histórias.



1-Foco Narrativo

3ªpessoa
3ªpessoa  
3ªpessoa  
3ªpessoa  
1ª pessoa
1ªpessoa.
3ªpessoa  
3ªpessoa  
3ªpessoa  
Narrador onisciente
Narrador onisciente
Narrador onisciente
Narrador onisciente
Narrador personagem
Narrador personagem
Narrador onisciente
Narrador onisciente
Narrador onisciente
2- Tempo- começo do século XX.
3-Cenário- sertão de Minas Gerais.
4- Resumo: Sagarana
O Burrinho Pedrês(TEMÁTICA: EXPERIÊNCIA DE UM VELHO ANIMAL; LUTA DO BEM CONTRA O MAL )
Este conto se passa na Fazenda da Tampa, de propriedade do Major Saulo. Seus serviçais estão escolhendo os cavalos que transportarão os homens sertão afora com o objetivo de tanger um rebanho de bois de corte. Infelizmente o burrinho Sete-de-Ouros é um dos animais selecionados para esse trabalho. João Manico é o vaqueiro que o montará.
Enquanto isso, Raymundão narra a história do touro Calundu. Ele só feria quem estivesse a cavalo. Uma vez ele desafiou uma onça preta e afugentou o bicho só para preservar um bando de vacas com seus bezerrinhos.  Ao tirar a vida de Vadico, filho do proprietário rural Neco Borges, ele só é poupado a pedido do rapaz. Mas Raymundão foi então encarregado de conduzir o animal para outra propriedade. Um dia depois de chegar ao novo lar o touro foi encontrado morto.
Após um temporal, a manada atinge o córrego da Fome, o qual estava quase transbordando. Atravessá-lo seria um risco e o Major Saulo insiste que todos tomem cuidado, pois neste lugar muitos já haviam perdido a vida. Porém, tudo corre bem e até o burrinho passa pelas águas sem problemas.
Em um dado momento, o Major exige que João Manico deixe Francolim montar Sete-de-Ouros. Ele assim faz, mas o encarregado pede ao patrão que, quando chegarem ao vilarejo, ele possa mais uma vez trocar de montaria, pois seria humilhante para ele ser visto no lombo do burro.
Dois dos vaqueiros do bando exigem atenção. Badu e Silvino se desentenderam por conta de uma garota caolha. Os dois viraram rivais mortais. Francolim e o Major suspeitam que Silvino esteja planejando matar Badu, que vai se casar com a ex-namorada dele. O vaqueiro carrega consigo mais bens do que deveria e negociou quatro reses por um valor muito baixo. Saulo pede que Francolim observe Silvino a cada momento no regresso da caravana.
Os vaqueiros foram recebidos com festanças no vilarejo. Os bichos vão repousar enquanto os homens passeiam pela região. Na partida os vaqueiros zombaram de Badu. Como ele estava embriagado, foi obrigado a montar o Burrinho, mas era volumoso demais para o animal. Na saída do vilarejo Francolim aguardava pelo companheiro.
Logo depois o encarregado deixa Badu sozinho e se preocupa em vigiar Silvino, que caminhava avante ao lado do irmão dele, Tote, que tentava convencê-lo a não acabar com a vida de Badu. Porém o homem traído insistia em levar seu plano adiante.
A caravana seguia viagem noite adentro. Subitamente os cavalos estacaram diante do córrego transbordado. Os homens decidiram aguardar Badu e Sete-de-Ouros. Se o animal avançasse pelas águas, seria possível transpor o ribeirão, já que este bicho não costuma adentrar um ponto de onde não consiga partir.
O burrinho mergulha nas águas levando Badu consigo. Os outros confiam e vão atrás. Mas não conseguem atravessar o riacho. Oito vaqueiros perdem a vida na travessia: Benevides, Silvino, Leofredo, Raymundão, Sinoca, Zé Grande, Tote e Sebastião. Sete-de-Ouros, porém, chega ao seu destino com Badu às costas e Francolim segurando seu rabo. Ao pisar em solo seguro o animal se liberta do encarregado e vai direto para a fazenda.  Em casa ele é liberado do homem adormecido e de seus arreios.

A volta do marido pródigo
Lalino Salãthiel é um mulato esperto que nunca chega na hora para o trabalho árduo na mineração da terra. Seu Marra vigia o tempo todo os trabalhadores, mas nem ele pode com o protagonista. Este vive criando histórias e justificativas para não se matar de trabalhar. Alguns gostam muito dele, outros o desprezam. Generoso acredita que o espanhol Ramiro está cercando a esposa de Lalino.
O protagonista decide ir para a capital. Ele chega ao trabalho, pede as contas e ao regressar para casa vê o homem que tenta conquistar sua esposa, Maria Rita. Lalino tem uma ideia; inventa que deseja partir sem sua garota, mas não tem os recursos financeiros para fazer a viagem. O espanhol cede e lhe empresta um conto de réis. O protagonista embarca para a capital do Brasil.
Um mês se passa e Maria Rita está arrasada. Três meses depois, ela já vivia com Ramiro. Todos acreditavam que Lalino tinha negociado a própria esposa. Mais de meio ano após esses fatos, ele já viveu muitas peripécias em terras cariocas. Mas agora o homem está prestes a ficar sem nada e começa a ficar saudoso. Resolve então retornar para casa.
No vilarejo todos zombam dele. Ele vai à morada do espanhol e exige ver Ritinha, chegando até mesmo a ameaçar Ramiro ao aproximar sua mão do cabo da sua arma. De repente, porém, desiste de falar com a ex-esposa e leva apenas o violão. Verificou que Ramiro cuidava bem da mulher e no igarapé encontrou seu Oscar. O homem se comprometeu a conseguir um espaço para Lalino no mundo da política com seu pai, o Major Anacleto.
Porém o Major tem princípios morais rígidos e não quer dar uma chance para alguém que vendeu a própria família. Tio Laudônio, irmão de Anacleto, que vê em meio á escuridão e tem os sentidos apurados além da conta, intervém a favor de Lalino e consegue demover o Major de sua recusa. Ele pede que Lalino o procure um dia depois. Mas o protagonista só se apresenta na quarta-feira e dá de cara com Anacleto.
O Major tenta mandá-lo embora, mas o mulato o convence de que passou esse tempo fazendo um levantamento de quem era leal a ele e quem o atraiçoava pelas costas. Sabia tudo sobre os planos de Benigno para vencer Anacleto nas eleições. O protagonista demanda a proteção de Estevão, o capanga de quem todos têm medo, e passa a ser visto como o cabo eleitoral de Anacleto.
Tudo vai bem para Lalino até que Ramiro o entrega para o Major. O espanhol conta que ele vinha mantendo amizade com Nico, filho de Benigno. Tocavam e bebiam juntos, inclusive na companhia de Estevão. Anacleto ficou furioso. Porém o mulato o persuade de que tudo faz parte de seus planos para obter informações.
Após um tempo, Lalino pediu que Oscar fosse até Ritinha e falasse com a mesma sem contar que ia a pedido de Lalino. Ele fez o oposto do pedido, inventando intrigas e tentando roubar um beijo da mulher. Ela o mandou embora alegando que era mesmo apaixonada pelo ex-marido. Mas Oscar relata ao protagonista que a ex-esposa tinha, na verdade, se apaixonado por Ramiro.
Uma tarde Ritinha vai até a fazenda e aos prantos implora ao Major que a proteja, pois Ramiro, enciumado, desejava assassinar Lalino e ela; depois ele se mataria. Quando Anacleto exige que lhe tragam o mulato, descobre que ele estava tomando uns drinques com estranhos recém-chegados em um carro. Irado, acreditando ser seus opositores, vê o homem chegar com pessoas do governo, entre eles o Secretário do Interior. Feliz, o Major interveio para reconciliar Lalino e a mulher dele.

Sarapalha
Em um vilarejo quase deserto, às margens do Rio Pará, um surto de malária levou a população a partir. Em uma propriedade rural vazia, restaram três habitantes: Primo Ribeiro, Primo Argemiro e uma preta velha que todos os dias prepara a refeição. Não há como trabalhar nessa região.
O fantasma da morte assombra os primos. Um dia Ribeiro, achando que vai morrer, conta ao Primo Argemiro que a esposa partiu com um boiadeiro, deixando-o sozinho. Ele quis seguir os dois, mas se os achasse teria que assassinar o casal e lhe faltava ousadia para tanto.
Aproveitando as confidências, Argemiro confessa que era apaixonado por Luísa, a esposa de Ribeiro, embora nunca tenha se declarado a ela ou lhe desrespeitado. Embora sem forças e febril, por causa da malária, Ribeiro se enfurece com o primo. Apesar da insistência deste, ele não lhe concede o perdão e o expulsa.
Argemiro parte praticamente se arrastando e ainda, no caminho, é confundido pelos pássaros com um espantalho. Ele lamenta nunca ter se declarado para Luísa e sonha com ela, rememorando seu rosto antes do casamento. No cenário que o cerca ele vê flores azuis, mesma cor do vestido que cobria sua amada no dia do matrimônio.

Duelo
Turíbio Todo foi a uma pescaria e disse à esposa que retornaria apenas no dia seguinte. Na margem do rio o protagonista sofreu um incidente e acabou voltando ao anoitecer. Então ele flagrou a esposa com Cassiano Gomes, ex-policial e perito em armas. Turíbio fingiu nada ter visto e teceu um plano. Dias depois, pronto para a fuga, ele foi à residência do rival e atirou na nuca dele, um tiro certeiro, mas por engano matou o irmão dele, Levindo Gomes. Após o enterro, Cassiano se fechou no interior de sua morada. Preparou tudo e então iniciou a vingança.
Na perseguição Cassiano viu seus planos serem frustrados. Turíbio, exímio conhecedor das redondezas, levava vantagem. O protagonista estava tão confiante que regressou para casa e passou a noite com sua mulher, Dona Silvana.  Nessa ocasião ele confidenciou à esposa sua estratégia derradeira. Ele contava que o coração do rival não suportaria a pressão. Mas, quando foi possível, a companheira entregou seus planos para Cassiano.
Cinco meses se passaram sem que eles se enfrentassem. Então Turíbio, iludido com a ideia de fazer fortuna em São Paulo, partiu para a cidade grande. Depois levaria a esposa.  Enquanto isso, Cassiano, doente, tomou uma decisão; antes de sua morte ele acabaria com Turíbio. Ao passar pelo vilarejo chamado Mosquito, sua saúde piorou. Ele não conseguiu contratar ninguém que matasse seu rival.  Antes da sua morte, ele conhece um sertanejo chamado Vinte-E-Um, na verdade Antônio. Cassiano o ajuda inclusive a salvar a vida do filho. Quando ele morre, Turíbio retorna seguro de si. Mas Vinte-E-Um, desejoso de fazer justiça ao seu antigo benfeitor, acaba com a vida de Turíbio.

Minha gente
O narrador vai de visita à propriedade rural de seu tio, no momento preocupado em ganhar as eleições do lugarejo. Ele cai de amores por Maria Irma, sua prima. Mas esta paixão não é correspondida. Um belo dia a jovem é visitada por Ramiro, e o protagonista fica enciumado.
A moça conta que ele é noivo de outra mulher. O garoto teceu um plano; ele iria simular um relacionamento com uma jovem da propriedade vizinha. Mas a estratégia de fazer ciúmes à prima é frustrada. O único benefício de seus planos foi, sem querer, colaborar para a vitória de seu tio nas eleições.
O narrador parte. Na segunda vez em que ele vai à fazenda, a prima lhe apresenta a mulher da sua vida, Armanda. Ele é fulminado pelo cupido na mesma hora e logo depois a moça se torna sua esposa, enquanto Maria Irma contrai matrimônio com Ramiro Gouveia.

São Marcos(duelo travado entre dois apaixonados pela sonoridade poética)
O narrador é José, conhecido como Izé, médico graduado há pouco tempo e novo no Calango-Frito. João Mangolô era considerado um feiticeiro poderoso na região. José sempre zombava do preto-velho, desprezando seu saber e considerando tudo que o envolvia como pura superstição. Mas ele exagerava no preconceito e sempre dizia que todo negro era vagabundo, cachaceiro e feiticeiro.
Sem nada respeitar, o médico começa a declamar a oração de São Marcos quando encontro Aurísio Manquitola, que foge com medo.
Caminhando pelas trilhas que levam à lagoa, o narrador passa a contemplar a harmonia da natureza e dos animais. Subitamente ele perde a vista. Pouco a pouco ele percebe que está muito longe de todos e não tem como regressar a sua morada. Ele decidiu gritar, mas não teve resposta. José tenta se orientar entre as árvores e cai no choro, porém nada resolve.
Ele começa a rezar a oração de São Marcos, proferindo inclusive os insultos contidos na prece. O médico passa a ter alucinações e corre pela floresta. O narrador chega à residência de Mangolô movido por uma raiva descontrolada. Ele tenta esganar o feiticeiro, mas Mangolô implora que o deixe vivo. De repente a visão retorna. O feiticeiro tinha atado uma tira de pano preto nos olhos de um boneco para José ficar cego por um tempo. O narrador decide conviver em paz com o preto-velho.

Corpo fechado
Trabalhar não é com Manuel Fulô. Ele adora mesmo é contar histórias regadas a uma boa cachaça. O homem propõe ao narrador, médico em Lajinha, que seja seu padrinho de casamento.  Ele conta que tinha uma mula, Beija-Fulô, enquanto Antonico é proprietário de uma sela do México.
Os dois vivem tentando conquistar o bem do outro. Surge então Targino, um dos arruaceiros da região. Ele diz para todo mundo que vai dormir com a noiva de Manuel Fulô antes do matrimônio. O homem fica agoniado, pois o valentão é o dono da região. Surge então o feiticeiro Antonico e faz um acordo com Manuel. Ele vai ‘fechar seu corpo’, porém em troca precisará lhe dar a mula Beija-Fulô, bem de maior estima de Fulô. Sem saída, ele concorda.
Desta forma ele desafia Targino e, para surpresa do povo, acaba com a vida dele com uma singela faca que mais parecia um canivete. Manuel se casa com a amada e em algumas ocasiões ainda pode tomar por empréstimo sua mula de estimação. Além do mais, torna-se o novo valentão das redondezas.

Conversa de bois
Neste conto o autor destaca quatro fatores essenciais do sertão mineiro. Um deles é o carro de bois que atravessa a região transportando rapadura e um corpo, o do pai de Tiãozinho. Os animais são o segundo elemento; os outros são o condutor do carro e o guia, o menino Tiãozinho.
Oito bois movem o carro, Buscapé e Namorado, Capitão e Brabagato, Dançador e Brilhante, Realejo e Canindé. Na parte superior vai o carreiro, Agenor Soronho. O morto era também um guia da boiada. O garoto vive sua dor da perda; ele tem que enfrentar igualmente a exaustão e a forma cruel como Agenor o trata, incitando os bois sem dó ou piedade. Agora o garoto está sujeito à boa-vontade do condutor, que promove a sobrevivência dos familiares de Tiãozinho porque quer conquistar a mãe dele, a qual já era sua amante antes mesmo da morte do pai do garoto, Januário, que vivia paralisado e cego há algum tempo, sem condições de trabalhar. Enquanto Agenor adormece e o personagem mergulha numa espécie de transe, os bois conversam entre si. Os animais eram solidários ao menino e, a um comando dele, eles saltam adiante e provocam a queda de Agenor. O carreiro morre e a viagem segue mais leve

A hora e a vez de Augusto Matraga(LUTA DO BEM X O MAL, VALENTIA E FORÇA)
Augusto Estêves  (NHÔ Augusto)é o valentão do vilarejo onde habita. Ele gasta tudo que cai em suas mãos e, com o falecimento de seu pai, conhece a miséria. Um belo dia ele recebe uma mensagem de Quim Recadeiro; acabara de ficar sem seus capangas, recrutados por seu maior rival, o Major Consilva, e sua esposa e a filha tinham partido na companhia de Ovídio Moura.
Inconformado, ele vai à fazenda do Major para enfrentar os antigos homens de confiança. O Major exige que o protagonista receba a marca do ferro no glúteo e que a vida lhe seja tirada. No auge da agonia, ele pula de um abismo. À beira da morte, é socorrido por um casal de negros. Até um sacerdote é chamado para confortá-lo. Ao se curar, o protagonista resolve mudar de vida. Então ele se refugia com os negros no Tombador.
A partir de então, ele passa a trabalhar sem cessar, especialmente para a sobrevivência do casal que o salvou. Além disso, ele pretende expiar seus erros. Em uma ocasião o bando de jagunços comandado por Joãozinho Bem-Bem chega ao povoado e Augusto e o célebre fora-da-lei se tornam amigos. É com tristeza que o protagonista o vê partir.
Com a passagem do tempo, Augusto também se despede de Tombador, sentindo que seu momento está por vir. Ele se depara com o jagunço, que se prepara para eliminar uma família por revanche. O protagonista implora ao amigo que não cometa essa atrocidade, e o mesmo vê esse pedido como uma ofensa. Ambos duelam entre si e acabam perdendo a vida.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Claro Enigma - DRUMMOND - GERAÇÃO DE 30 -fases de Drummond, contexto histórico, resumo das partes.



Livro: Claro Enigma(1951) – DRUMMOND( MORREU 1987, DOZE DIAS APÓS A MORTE DE SUA FILHA)- GERAÇÃO DE 30
A fase gauche (1930-1940): - Eu maior que o mundo - poema, humor, piada. Período marcado pelo isolamento, individualismo, reflexões metapoéticas e existenciais, humor e ironia. Principais obras: Alguma poesia (1930) e Brejo das Almas (1934).
A fase social (1940-1945): - Eu menor que o mundo - poesia de ação. Representa as contradições entre o ser e o mundo. Há o abandono do individualismo e a tomada de postura histórico-engajada. Vale lembrar que falamos de um período de guerras e conturbação política nacional e mundial: Segunda Guerra Mundial, Ditadura de Getúlio Vargas, Nazifacismo. Principais obras: Sentimento do mundo (1940), José (1942) e A rosa do povo (1945).
A fase do não (1950-1960) - Eu igual ao mundo - poesia metafísica (Metafísica é uma palavra com origem no grego e que significa "o que está para além da física". É uma doutrina que busca o conhecimento da essência das coisas).
Período marcado pelo desencanto político.
O poeta se lança numa poesia reflexiva, filosófica e metafísica. Claro Enigma introduz essa vertente filosófica, pessimista e reflexiva, abordando morte e vida, infância e velhice, o amor e o tempo. Principais obras:
Claro Enigma (1951), Fazendeiro do ar (1955), Vida passada a limpo (1959) e Lição de coisas (1962).

A fase da memória (1970-1980): compreende o período de lembranças da infância na cidade natal Itabira, além de reflexões universais sobre o tempo e a memória. Principal obra: a série Boitempo (1973). Carlos Drummond de Andrade acabou com a estrutura tradicional da linguagem literária quando inventou uma palavra composta para dar nome aos seus poemas Memorialísticos: Boitempo.
Boitempo é uma pequena poesia de Carlos Drumond de Andrade que fala do tempo na roça delimitado pela rotina do gado ("... No gado é que dormimos e nele que acordamos... A lua chega no leite, morno esguicho das tetas e o dia é um pasto azul que o gado reconquista.").

Contexto histórico - DRUMMOND:

No final dos anos 1940 – período de composição dos poemas de Claro Enigma – vivia-se a Guerra Fria e a ameaça da bomba atômica. O mundo mergulhava em uma disputa ideológica envolvendo capitalismo e comunismo que, para além das diferenças entre as duas ideologias, revelavam os meandros dos regimes de força que as sustentavam. Para um poeta como Drummond, que sempre lutou pela liberdade, a percepção dessa identidade entre regimes ideologicamente tão distintos conduzia à perplexidade e ao pessimismo. A obra é incapaz de mudar a sociedade desigual. Ele se sente pequeno diante de um mundo tão errado, muito marcado pela Segunda Guerra Mundial e pela Guerra Fria”.
A obra representa uma fase muito específica do autor  - Drummond  tinha uma maturidade poética grande. Até 1950 vimos um Drummond preocupado em falar sobre as desigualdades do mundo. A partir da publicação do Claro Enigma, percebemos um Drummond mais introspectivo, uma poesia muito mais de estrutura clássica.
Drummond deixa suas influências modernistas e adota o formato clássico (sonetos).
O autor já não possui mais aquele perfil contestador de quem procura uma solução para os problemas. Agora, ele assume o papel reflexivo, simplesmente apresentando as questões, sem esperança.

Claro Enigma: introduz essa vertente filosófica, pessimista, metafísica  e reflexiva, abordando morte e vida, infância e velhice, o amor e o tempo.
Recursos literários e de linguagem
Formas clássicas: Uso do soneto; tercetos e versos dísticos(estrofe de dois versos)
Intertextualidade com poetas clássicos(CAMÕES, DANTE) e mitos greco-romanos; Influência da poesia classicista e simbolista. Busca de uma forma mais elaborada.
Recursos modernistas: Uso do verso livre; Períodos longos e prosaicos; Metapoesia; metalinguagem; Influência do Surrealismo (universo onírico(SONHOS), imaginativo).
Linguagem rebuscada.
O título´: O livro é constantemente marcado pela presença do conflito eu X mundo. As contradições permeiam a obra: o eu poético ora aparece recluso, fechado em si mesmo, ora se desnuda, aparece com ares mundanos.



O fusionismo, característica barroca, se mostra desde o título: a tentativa de união entre claro e escuro, o encontro e o desencontro, a aceitação e a negação. O título nos remete a um eu lírico de sentimentos indecifráveis, obscuros. Um enigma claro é um enigma esvaziado de sentido, morto, um falso enigma, é a negação da semântica como recurso de definição do eu.
Enigma: o incompreensível, de difícil explicação, o mistério- eu lírico de sentimentos indecifráveis, obscuros.
Claro: ausência de mistério, clareza. Ou seja, a negação do enigma. Desse modo, tem-se um eu que procura solucionar os mistérios do mundo, resolvê-los, pois entende assim a função do poeta. No entanto, após a leitura da obra, percebe-se que o enigma permanece sem resolução.
"Les événements m'ennuient"“Os acontecimentos me entediam “- a epígrafe que abre o livro, de autoria do poeta francês Paul Valéry (simbolista), prenuncia a temática que será dominante em Claro Enigma: a melancolia, a postura desencantada de um eu lírico que precisa enfrentar a vida sem falseamentos, sem ilusões.
O sujeito quer escancarar para si e para o mundo tudo o que a vida traz, buscando a essência das coisas. “Os acontecimentos me entediam”: é a resposta do sujeito cansado do aparente, do meramente visível. É a tentativa drummondiana de romper com a poesia engajada. Ao usar a frase, o poeta confessa seu asco perante a história, já que essa é feita de acontecimentos. Porém, pode-se questionar se esse desgosto frente a vida é contra a História ou a própria história do poeta mineiro. Se é um desabafo para penetrar no mais íntimo do seu ser, para se proteger do caos mundano ou para encontrar uma esperança para a vida. O leitor atento tem que perceber, no entanto, que Claro enigma também abriga uma série de poemas que parece desmentir a epígrafe tomada de Valéry. Trata-se, no caso, daquela série reunida numa seção nomeada “Selo de Minas”, que, com os versos de “Morte das casas de Ouro Preto”, “Museu da Inconfidência” ou “Os bens e o sangue”, registraram, a partir de diversos acontecimentos, algo muito específico: a percepção de feitos que, na história de Minas, antes de entediarem, terminaram provocando o espanto diante da frágil identidade entre o presente e o passado.
Esses poemas são divididos em 6 seções: (total de ____poemas)- reflexões sobre estar no mundo
1-Entre Lobo e Cão – com maior número de poemas: 18
Textos que expõe o extremismo e a binariedade; a solidão e a companhia (o autor apresenta o lobo, um animal selvagem e predador. Do outro, ele apresenta o cão, um animal domesticado, amigo do homem  e carinhoso.) É exatamente isso que Drummond faz: mostra os lados extremos ao retratar seus temas. Os substantivos comuns escritos com iniciais maiúsculas ( Lobo e Cão) tornam-se próprios fazendo supor também uma relação com as constelações, inscritas na bandeira nacional, representativas dos estados nacionais.
Característica de Drummond:o pessimismo (ao contar de suas decepções e seu luto).
Partes:
Dissolução: a imagem da noite, a decomposição, a desagregação. Poema de tom crepuscular, no qual o eu lírico aceita passivamente a escuridão, a ação demolidora do tempo. Esse poema insere o leitor na temática filosófica, existencial que permanecerá ao longo da obra.
Remissão: Já no primeiro verso a presença da metalinguagem “Tua memória, pasto de poesia”. Poema em tom de luto, pessimismo. É a memória o único alimento da poesia, essa que aparece às vezes como inútil. O poeta perdoa-se, é a sua remissão o ato de escrever, nada mais.
A ingaia ciência: negação do conhecimento e inutilidade do mesmo. A madureza/conhecimento é um presente assustador, pois tira o sabor da vida, a ingenuidade, a inocência, a surpresa de viver. Poema de tom melancólico, desiludido.
Legado: um dos mais importantes poemas dessa parte. É a reflexão do eu no mundo. Que fatos merecem ser lembrados no porvir? Eis o questionamento desse poema. No poema “Legado”, pode-se perceber com evidência o que se quer dizer com “contribuição para a construção ou o reforço de uma identidade coletiva”, ou a presença de um elemento novo acrescentado ao edifício da chamada “mineiridade”. Nesse poema o poeta faz alusão a outro, o famoso “No meio do caminho” (Alguma poesia, 1930), escândalo da época e que, segundo Drummond, dividiu as pessoas em duas categorias mentais, ficando, nas palavras do Poeta, como um legado seu. No fecho de “Legado”, o Poeta, aludindo no último verso ao polêmico poema publicado 21 anos antes, dá resposta às perguntas iniciais sobre o





que restaria de seu para a posteridade: Que lembrança darei ao país que me deu tudo o que lembro e sei, tudo quanto senti? (...) De tudo quanto foi meu passo caprichoso na vida, restará, pois o resto se esfuma, Uma pedra que havia em meio do caminho.

Confissão: Desde os primeiros versos desse poema, o eu lírico confessa sua ação fria diante do outro. O único afeto que deixou escapar de si foi destinado a um “aquele pássaro – vinha azul e doido –/ que se esfacelou na asa do avião”. O intenso pessimismo é marcado pela recorrência de palavras negativas: não, nem, sem.
Perguntas em forma de cavalo marinho: poema metalinguístico, o poeta questiona a forma, a métrica e o conteúdo do homem, seguindo-se a possibilidade de estarmos contidos em algo ou até mesmo se estamos de fato vivos.
Os animais do presépio: poema com forte tom bucólico, mas sem o elemento árcade do pastoralismo.
Sonetilho do falso Fernando Pessoa: Temática da duplicidade. Presença de dois “eus”: um que vive no presente da escrita e outro que, “morto”, vive nas recordações da infância em Itabira.
Um boi vê os homens: prosa poética: o olhar manso do boi gera a compaixão e a perplexidade diante do mundo do homem. O poeta segue assim a linha pessimista frente ao existencialismo humano. Memória: poema de conscientização da necessidade de amar tudo aquilo que se perde ou se vai no atrito do tempo. Somente as recordações ficarão e terão morada certa em nós.
A tela contemplada: Poema metalinguístico. O poeta associa o poema às artes plásticas. Como num poema parnasiano, repleto de descritivismo. Ser: poema com forte presença biográfica, já que fala de um filho que seria homem no tempo presente, não houvesse a morte o tragado. Drummond teve um filho, Carlos Flávio, que morreu logo após nascer.
Contemplação do branco: poema dividido em três partes. Um eu angustiado por não viver para contemplar a flor que brota num chão, talvez humanizado, no qual todos pisam.
Sonho de um sonho: atmosfera onírica, um sonho dentro do outro (construção em abismo). Os sonhos, no entanto, se apresentam falsos, desiludidos, o pessimismo próprio do mundo.
Cantiga de enganar: poema longo, de negação, de um mundo onde o poeta não se encontra. Poema de desabafo do eu oprimido para um interlocutor chamado de “meu bem”. A saída para a frustração é construir um mundo de palavras, de utopia. O “Mundo”, grafado com letra maiúscula no final do poema, representa o lugar ideal, produto do engano da “cantiga de enganar”.
Oficina irritada: poema metalinguístico. O poema como produto do trabalho, como pregavam os parnasianos. O último verso traz a nomeação do livro “claro enigma”.
Opaco: o leitor é colocado dentro da noite, mas o poeta não pode contemplá-la, já que o “edifício barra-me a vista”. A paisagem é urbana, com seus edifícios e motores.
Aspiração: poema que encerra a primeira parte. Escrita de recusas, desencantado. Intertextualidade com o poeta tcheco Rilke, de vertente existencialista.
2-Notícias Amorosas – com 7 poemas
São poemas que falam do amor inalcançável. Drummond constrói uma imagem romântica do amor, mas destaca que ele não poderá ser vivido. Ideia de sofrimento e dificuldade em cima desse sentimento.
Parte dedicada à temática amorosa. Contudo, o amor descrito é o do desencontro, reflexões sobre o amor que é sinônimo do eu ˖ tu. Amores de contemplação e de sofrimento.
Amar: amor como condição humana, da qual não se pode correr, mesmo em face daquilo que parece não seduzir “e amar o inóspito, o áspero/um vaso sem flor, um chão de ferro”.
Entre o ser e as coisas: no cenário poético, o eu se divide entre a contemplação do mar e do amor. Logo, o amor que encanta também faz sofrer, restando a melancolia do fim do dia (mais uma cena de crepúsculo).
Tarde de maio: poema prosaico: na presença de uma chuva que traz vida, o eu poético dialoga com a tarde de maio sobre o fracasso de um encontro amoroso. O amor como sinônimo de dor, de desgosto. Fraga e sombra: a noite aparece aqui como matéria para a arte. O amor, entre sombras e despenhadeiros, belo e paradoxal, é dor e beleza, que o mundo não entende.
Canção para álbum de moça: poema única estrofe. O eu lírico divide sei bom dia a uma moça distante e espera uma resposta dela. No entanto, a moça permanece indiferente. O amor tímido está envolto em um estado de escuridão, prenunciado pela imagem da noite.
Rapto: poema que demonstra “outra forma de amor”; amor homoerótico. Representa o mergulho da águia sobre sua presa. O poema pode se referir ao mito grego do rapto de Ganimedes pela águia de Zeus, desejoso de possuir o rapaz.





Campo de flores: poema do amor maduro. O amor descrito “talhado em penumbra”, luz e escuridão se fundem diante desse amor maduro, repleto de esperanças, tal como a imagem das flores.


3-O Menino e os Homens – com 4 poemas
Será nessa seção que entram os poemas feitos com nostalgia e saudade. Ele retrata amigos e familiares.
Porém, com sua típica visão pessimista, ele questiona como é que as pessoas podem aproveitar sua vida, já que o fim de todos será a morte.


Aqui, o que permeia a escrita Drummondiana são os poemas memorialísticos: é a lembrança de entes falecidos, amigos e irmãos. Permanece o tom pessimista, negativo.
A um varão que acaba de nascer: o poema traz a imagem de um menino que nasce e de um amigo que morre. A vida e a morte, duas faces antagônicas da vida. Aquele que vem ao mundo é Pedro, a quem o eu lírico chama de irmão.
O chamado: poema dedicado à Manuel Bandeira. Referências à Pasárgada, por exemplo, marcam esse apontamento. O eu poético, observador, vê o poeta caminhar. Há um rápido diálogo entre os dois, quando o eu lírico questiona para aonde vai o poeta e Bandeira responde: “Ao meu destino”.
Quintana’s bar: poema prosaico, no qual o eu lírico encontra Mário Quintana num bar. Há uma teia de aranha sendo desenhada, a qual pode remeter ao próprio trabalho literário, profissão dos dois autores. Há referência intertextual através da citação de autores famoso.
Aniversário: aniversário de morte e não de nascimento. É a lembrança da morte de Mário de Andrade, poeta com quem Drummond trocou cartas durante bom tempo.

4- Selo de Minas – com 4 poemas
A seção com 4 poemas é autobiográfica. Drummond conta sobre sua terra natal Minas Gerais e apresenta sua família ao leitor.
Parte autobiográfica. Traça o percurso pelos caminhos mineiros, especialmente a Minas do período colonial. Duas temáticas predominantes: Minas e família Drummond.
Evocação Mariana: o poema é uma memoração de um rito religioso, com a descrição da cidade mineira Mariana.
Estampa de Vila Rica: poema dividido em cinco partes, numeradas por algarismos romanos.
Parte I: Carmo: representa o desejo de preservar os elementos da Igreja Nossa Senhora do Carmo.
Parte II: São Francisco: o poeta se deslumbra frente a beleza das obras de Aleijadinho e Mestre Athayde, representantes da arte barroca da época.
Parte III: Mercês de cima: contraste entre o profano e o sagrado, o sensual e o espiritual, isso na imagem da prostituta posta em frente a igreja.
Parte IV: Hotel Toffolo: necessidade de saciar a fome interior, referência à antropofagia.
Parte V: tentativa de reconstruir, por meio da memória, o passado da cidade de Ouro Preto, palco de cenas tão importantes para a história nacional. Morte nas casas de Ouro Preto: lamento sobre a destruição que o tempo e os fenômenos naturais operam sobre as casas (monumentos e valores) de Ouro Preto. A chuva aqui traz a ruína, a demolição das casas é uma metáfora da própria história. Há uma referência à poética de Claudio Manoel da Costa no verso: “Sobre a ponte, sobre a pedra/sobre a cambraia de Nize” (Nize, musa inspiradora do poeta árcade).
Canto negro: mostra o tempo de infância, tempo escravocrata, em que fora amamentado pelas negras. O eu lírico se encontra com vários “pretos” que marcaram sua trajetória.
Os bens e o sangue: dividido em oito partes, o poema mistura narração e poesia, para falar da decadência financeira da família. Poema explicitamente autobiográfico, pois relata uma patilha de bens realmente ocorrida em 1847. O título remete à riqueza e dor. Tem-se um sujeito preso à um passado familiar maldito, o que ecoará em toda a sua vida de poeta esquerdo, gauche.
5-Lábios Cerrados – com 6 poemas
O vestibulando vai encontrar poemas sobre pessoas que já morreram, mas que ficarão sempre vivas e atuais na lembrança do autor.








Drummond fala sobre a ausência de pessoas importantes e apresenta o tempo como uma possível solução para seu sofrimento.
Parte que trata da memória da família Drummond. Cerrar os lábios é sinônimo de silêncio, mudez. É o silêncio da memória, especialmente nas lembranças do pai. Há também uma reflexão sobre o tempo e a aceitação da morte.
Convívio: poema prosaico. Discorre sobre a memória: aqueles que se foram, mas que sobrevivem nas lembranças. A presença/ausência dos mortos.
Permanência: também em tom prosaico, segue o mesmo tema do anterior: os mortos que sobrevivem na lembrança dos vivos.
Perguntas: o eu lírico pergunta a seu fantasma q razão de estar um preso ao outro. O presente preso ao passado.
Carta: o poeta deseja escrever uma carta, em tom confessional, dizendo que ama, que deseja rever o destinatário... Mas o tempo passa e o eu lírico ainda espera resposta.
Encontro: o sujeito lírico se encontra com o pai já morto, o ente que se perdeu na vida, mas que foi resgatado no sonho pela imaginação.
A mesa: poema longo, de uma única estrofe. Assim como Encontro, é uma homenagem ao pai morto. O poeta planeja uma festa para o pai, em que todos os parentes de uma mesa, comemorariam os noventa anos do velho pai. Vê-se a descrição da família patriarcal mineira, onde a mãe é emudecida. O poema termina com o fim da cena imaginária: o vazio da alma, presente só a lembrança.
6- Máquina do Mundo – com 2 poemas
A última seção da coletânea discute o futuro do homem dentre de uma sociedade estabelecida. O poeta apresenta uma série de soluções, mas logo as desconsidera.
A seção ganha o nome de seu texto eleito como o melhor poema brasileiro do século XX, pelo jornal Folha de S. Paulo.
Parte final da obra, fala sobre o homem e seu estar no mundo. As interrogações de toda a obra estão aqui presentes, sendo oferecidas as soluções, as quais o poeta recusa: afinal, são os questionamentos que movem a vida.
A máquina do mundo: Um dos maiores poemas de Carlos Drummond de Andrade é “A Máquina do Mundo”. A ideia de que o mundo era uma máquina esteve em voga desde a Antiguidade até a Renascença. No poema de Drummond, a máquina do mundo abre-se para o poeta em determinado momento, oferecendo-lhe uma “total explicação da vida”. Quando isso ocorre, ele, que por longo tempo havia buscado exatamente essa explicação, enigmaticamente a desdenha. Por quê? O poeta não só não acredita mais na possibilidade de tal explicação como não mais a deseja. Se, na Idade Média, a máquina do mundo ainda parecia capaz de se abrir, é porque era tida como finita e fechada. Camões, na Renascença, no canto X, ainda a descreve como um rotundo globo cercado por Deus. Se o poeta desdenha “colher a coisa oferta/que se abria gratuita” a seu engenho, é que a razão já lhe mostrou que a aceitação de uma “total explicação do mundo” não pode ser senão o mergulho em mais uma ilusão, que inevitavelmente lhe custará mais uma desilusão. É, pois, com ironia que chama de “gratuita” a “coisa oferta”, no momento mesmo em que explica havê-la desdenhado, “incurioso e lasso”. Segundo ele, um dom tão dúbio e tardio –não apenas em relação à idade individual do poeta, mas, principalmente, em relação à época moderna do mundo- já não lhe era “apetecível, antes despiciendo”. Sem abrir mão da sua liberdade e ironia, avaliando o que perdeu ao abandonar o mundo fechado, o poeta segue o seu caminho “de mãos pensas” ou, como se lê no poema “Legado”, “a vagar taciturno entre o talvez e o se”. Relógio do rosário: esse poema se liga diretamente ao anterior. O relógio da igreja remete ao tempo e o olho do poeta, a consciência. É o choro do mundo misturado ao seu próprio choro. São as dores de existir e de amar em suas diversas vertentes: o social, a memória, a morte, a condição humana.
Aqui, o poeta recusa as respostas propostas, levando consigo as respostas ausentes.